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''Eu criei a gíria ‘tri', em 75'', afirma ex-DJ, o agora mecânico aposentado Jueci Tavares

Quarenta anos depois dos "embalos de sábado à noite", mecânico aposentado reaparece e reivindica criação da gíria mais famosa dos "magrinhos" da Capital, nos Anos 70: o "tri" Reportagem: Jeison Karnal

“Eu tocava três embalos e uma lenta. A discoteca veio com tudo em 1974, aí virei DJ”, recorda o mecânico de caminhões do Estância Velha, Jueci Tavares, 67. Tinha cabelo comprido, usava calça Lee, mas “sem fuminho” (ele enfatiza). Jueci virou “Dj Gessi” nas festinhas de sábado à noite no Chácara Barreto, nos Anos 70. “O pessoal não sabia falar meu nome direito, aí Jueci virou DJ Gessi mesmo”, recorda com bom humor o aposentado, hoje com ralos cabelos, mas conservando o direto “fatal de direita”, como gosta de salientar (ao lado de um saco de areia de boxe, onde treina).

Enquanto operou oficialmente as pick-ups, até 1978, o Gradiente prateado nunca deixou passar um vinil de “Me and Mrs. Jones” ou “July July July July Got My Head On Straight”, de Billy Paul. Depois veio a febre dos Bee Gees e o petardo “Another Brick in The Wall”, do Pink Floyd (1979), no apagar definitivo de luzes das pistas para Dj Gessi. “As pessoas dançavam Pink Floyd na pista!”, destaca. “Até hoje eu me pego tentando entender o que foram os anos 70, algo muito diferente aconteceu no mundo naquela época.”

Numa dessas noites, entre 1975 e 1977, DJ Gessi lançou uma pérola setentista que grudaria na língua dos jovens da Região Metropolitana: “Olha esse magrinho ‘Tri lance’! Olha essa cocotinha ‘tri linda’!” Estava inventada a gíria “tri”. Expressão que pegou a juventude e sobrevive aos nossos dias. DJ Gessi garante: 

Eu criei a gíria em 1975 e pegou.

O DC tomou todos os cuidados para saber da veracidade, ao mesmo tempo, não tanto a ponto de estragar a lenda. Afinal, quase sempre as versões são mais interessantes que os próprios fatos. O doutor em Literatura da UFRGS Luís Augusto Fischer topou o desafio e entrou na brincadeira. 

Impávido que nem Cassius Clay

Uma foto de Jueci parou na Folha da Tarde. No ringue, ganhou na Sogipa e no Ginásio da BM, na Capital. “Dei uma no rim e o outro lutador ficou só no clinch”, recorda. “Ele encostava no meu ouvido e pedia para eu maneirar, para deixar ele perder em pé.” Jueci era fã de Cassius Clay. “Parei porque comecei a trabalhar, virou hobby”, diz. “Em 74, fui no Hipo Imcosul e parcelei meu gradiente, era tri, já vendi os pratos.”

De 1968 a 1970, antes de ser DJ, Jueci foi ao ringue e faturou dois títulos “tri”. Rival até pediu clemência.

Professor da UFRGS desvenda o "Caso tri"

Doutor em Literatura, titular da UFRGS, Luís Augusto Fischer escreveu o “Dicionário de portoalegrês” (LP&M, 2007). Queria rastrear a origem das gírias. Para ele, “canção é Literatura”, não vale só o papel, e a cultura também é oral. É o Caso do “Tri”.

. Foto: Arquivo Pessoal

1. Foi o DJ Gessi que inventou o “tri”?
É linguagem oral, nunca vai se saber a origem precisa. Os dicionários trazem a fixação escrita: “tal termo foi usado pela primeira vez no livro tal”. Toda a nossa tradição é lexicográfica, analisa o documental escrito (mudanças de sentido e forma). É impossível saber.

2. Como surgiu o tri, de acordo com sua pesquisa?
Contei no livro a história que eu conheço: o uso de “tri” foi em função do mundial de 70, reforçado por outro tri da minha geração: o do Internacional. Na época da seleção, lembro que
todo nome de bar novo fazia referência ao tri de 70. Depois, lá por 1972 e 1973, surge a Rádio
Continental, com perfil jovem. Os radialistas falavam gírias e falavam “tri”. De novo: meu livro é
de língua falada, grande parte do que está lá não tem documentação, a língua é uma coisa viva.

3. Essa é a sua primeira polêmica?
Escrevi o dicionário aos poucos quando era colunista do Jornal ABC. Um dia coloquei o “viajar na maionese” numa coluna. Um leitor reclamou dizendo que eu estava errado. Ele tinha inventado a expressão durante um churrasco quando a mulher dele havia dito uma bobagem. Pode ser que tenha sido mesmo, só que seria impossível saber.

4. Por que será que a expressão “tri” pegou?
A língua é uma coisa viva, como eu disse antes. Hoje em dia tem pelo menos três fatores
fortes de pressão sobre a estabilidade da língua, falada ou escrita: as redes sociais (nunca na história se escreveu tanto, antes se escrevia no colégio, para cartas ou lista de compras). Agora qualquer um pode escrever. Isso pressiona a língua, como um organismo. Se escreve “os cara”, sem plural do substantivo. É uma forma de lidar com a língua. Segundo: a mundialização. Até
15 anos atrás, podia se tentar policiar a língua para evitar estrangeirismos. Hoje não tem como segurar isso, usamos termos em inglês, como “APP” (aplicativo). O terceiro: surge outra pressão, a das novas vozes na Literatura. Tem gente de periferia como nunca antes houve, com um ponto de vista de gente que não se expressava por escrito. A língua escrita está nesta crise, a do jornalismo impresso está nesta crise. Antes da internet, se pensava: “se os jornais escreverem bem, teremos um padrão”. Só que hoje isso não é mais garantia, as coisas mudaram.

Erasmo "É Fantástico"

Ao lado da esposa, Amara Tavares, 67, DJ Gessi mostra um caderno antigo escrito a mão. Ali está a cosmologia do “tri”. “Eu via nas festas aqueles jovens livres: música, pessoas e danças, juntos, era uma obra de arte viva, eu tinha que inventar um bordão e definir aquilo”, conta. “Me deu um estalo enquanto assistia a uma entrevista do Erasmo Carlos no Fantástico, era 1975 ou 1977, ele contava que a esposa dele era ‘freelancer’, aquilo deu um estalo.” Essa é para ler com o ouvido: “freelancer” viraria “tri lance” na cabeça do DJ. “Tá aí, eu pensei! é tri! Uns até
hoje não acreditam”, desabafa. “Não preciso mentir, de coração: o ‘tri’ não tem nada a ver com futebol. Eu criei.”

. Foto: PAULO PIRES

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