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Notícias | Ser Educação Em tempos de distanciamento

Com ensino remoto, professores buscam formas de humanizar as aulas

Além de planejar as aulas no formato digital, educadores têm o desafio de adequar o ensino ao que propõe a Base Nacional Comum Curricular

Por Bruna Mattana
Publicado em: 12.09.2020 às 05:00 Última atualização: 12.09.2020 às 09:34

Natália organizou uma festa junina em sua casa Foto: Arquivo pessoal
Tornar o estudante protagonista na construção do conhecimento e da sociedade em que vive é a proposta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que, este ano, começou a ser implementada na educação infantil e no ensino fundamental das escolas de todo o Brasil. O documento para a educação básica, que abrange também o ensino médio, foi aprovado em 2017 pelo Ministério da Educação. No entanto, o texto para essa última faixa etária, homologado em 2018, ainda está sendo estudado pelos Estados.

O fato é que a BNCC propõe um novo olhar sobre a educação, por meio de dez competências, que funcionam como um fio condutor para toda a educação básica. São elas: conhecimento; pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; comunicação; cultura digital; trabalho e projeto de vida; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação e responsabilidade e cidadania.

Segundo o professor da Universidade Feevale e membro do Conselho Estadual Educação, Gabriel Grabowski, trata-se de um novo currículo, uma proposta totalmente inovadora de ensino, cujo foco é a formação humana de forma integral. No entanto, como fazer isso em meio a uma pandemia? "No ano passado as escolas já estavam estudando esse novo formato de ensino por competências, por habilidades, mas a BNCC ensino infantil e fundamental estava iniciando sua implementação, de fato, agora em março. Se, por um lado, o novo currículo já gera um desafio para as escolas, professores e alunos, na medida em que isso é transposto para o modo virtual agrega novos questionamentos", pontua.

Nesse sentido, ele destaca a etapa da formação dos professores, que ainda está sendo finalizada na BNCC. "Essa parte, que deveria ser a primeira, está sendo a última a ser elaborada. Por isso, os professores estão tendo que resolver esse novo desafio sem a devida formação e ainda em um contexto diferente. Estávamos nos preparando para fazer isso presencialmente", salienta.

A professora do Curso Normal e Pedagogia e coordenadora dos cursos de especialização do Instituto Ivoti, Raquel Konrath, destaca que a BNCC prevê como uma das competências gerais a inserção na cultura digital, e o contexto da pandemia acelerou e intensificou essa inserção pela necessidade do uso de novas ferramentas para manter a presencialidade, a convivência e o vínculo com a aprendizagem. "De acordo com a BNCC, o conhecimento deve ser mobilizado na resolução de demandas complexas do cotidiano, assumindo posturas protagônicas e tanto nós como professores, como também nossos estudantes tivemos que nos reinventar para criarmos novas formas de ensinar e aprender", salienta.

Ela destaca que, como proposta metodológica, a instituição investiu no pensamento científico, crítico e criativo, procurando novas formas de comunicar as aprendizagens, enfatizando a necessidade da argumentação por meio do conhecimento e da pesquisa. "As habilidades socioemocionais como a empatia, a autonomia, o autocuidado e a cooperação foram vivenciadas na prática, uma vez que não se ensinam por meio de instrução, mas na ação, por meio das experiências e foram essenciais para superarmos os desafios que o contexto nos apresentava. Uma escuta e um olhar atento ao contexto social e emocional foi necessário", pondera.

Atividades são adaptadas à rotina de cada família

A professora Vanessa da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Machado de Assis, de Novo Hamburgo, conta como estão sendo as aulas com os alunos da faixa etária dos quatro anos. "A gente vem tentando buscar a interação com as crianças, principalmente usando a casa delas como um laboratório, pois temos que pensar que nessa pandemia nem todas as crianças têm os recursos disponíveis para trabalhar, para fazer uma pintura, uma releitura, por exemplo", pontua.

Ela destaca que está trabalhando os conteúdos da BNCC, do referencial gaúcho e das matrizes municipais do caderno de orientação pedagógica. "Seguimos os três documentos. A ideia principal, para a educação infantil, é trabalhar usando o cotidiano como um fio condutor das propostas pedagógicas. Na escola, a gente estaria trabalhando a rotina, o momento do lanche, da higiene, para que a criança tenha autonomia e segurança para seguir sua vida escolar", pontua.

Como não é possível trabalhar o cotidiano escolar, Vanessa destaca que precisa usar o cotidiano da casa das crianças. "O que é um desafio, pois a gente não sabe o espaço que a criança tem, o tempo que os familiares dispõem para ajudar. Mesmo assim, faço chamadas de vídeo, conto histórias, faço brincadeiras, tudo pensando em coisas que eles têm em casa. A BNCC propõe que as crianças descubram. Eu não passo os conceitos, mas as ideias vão surgindo a partir das descobertas que eles fazem. Por exemplo, quando fizemos a atividade do ovo, como um alimento nutritivo, e eles descobriram que alguns animais nascem dos ovos e quiseram saber mais."

O pequeno David aprende se divertindo

O operador de máquina Jardel de Almeida, 31 anos, pai do estudante David de Almeida, 5, diz que o tempo com o filho em casa é de aprendizado, mas aliado à brincadeira. "Ele adora as atividades da escola, e nós sempre realizamos em conjunto. Às vezes é comigo, em outros momentos com minha esposa. Está sendo muito bom participar mais ativamente da vida escolar do David. Incentivamos ele a desenhar, conhecer as letras. Assim criamos um elo importante, de confiança e companheirismo."

Habilidades socioemocionais

A professora do quinto ano do Instituto Ivoti Franciele Cavalheiro destaca que o maior ganho que está ocorrendo nas aulas remotas é o desenvolvimento das capacidades socioemocionais e intrapessoais. "O aluno é estimulado a ter mais autoconfiança, responsabilidade, organização com as tarefas e horários dos encontros, com seus professores e com os colegas, pois também possuem aula em grupo." Ela destaca que o aluno precisa, inclusive, realizar uma autoavaliação.

"Os estudantes também precisaram desenvolver maior capacidade de adaptação e, sobretudo, aprender a lidar com suas emoções." A educadora ressalta que a instituição sempre trabalha datas comemorativas, como Dia dos Pais, Dia das Mães, Páscoa. "Na Páscoa, todo ano eles caçavam o seu ninho na escola. Esse ano, a proposta foi fazer um ninho invertido, ou seja, eles foram convidados a confeccionar, com a ajuda da família, um ninho com mensagens de carinho e até um mimo para deixar no portão de suas casas para quem passasse na rua. Os relatos foram maravilhosos".

"Aprender é consequência do fazer", diz professora

A professora de literatura e língua portuguesa do Instituto Ivoti Marguit Goldmeyer, ressalta que o diferencial de uma aula está na metodologia empregada.

"Eu sempre trago comigo algumas perguntas fundamentais na hora de planejar. Primeiro, por que eu desejo abordar essa temática? Depois, como eu farei isso chegar ao aluno de modo a fazê-lo participar, interagir e, por fim, o que eu desejo que o meu aluno aprenda? Estudando o romantismo, propus aos estudantes a criação de um filme, com cenas do passado adaptadas para hoje. No barroco, eles criaram esculturas em casa e também memes. Para mim, aprender é consequência do fazer", sublinha a professora.

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