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Notícias | Região ABOLIÇÃO

Abolição: 131 anos de uma liberdade mal resolvida

Escravizados construíram Canoas à sombra dos heróis dos livros, quilombo urbano resiste

Por Jeison SIlva
Última atualização: 13.05.2019 às 11:04

Povos africanos escravizados. A chamada diáspora negra. Tempos de exploração do homem pelo próprio homem, como pintou o francês Jean Debret (século XIX), em terras brasileiras. Parece uma história longínqua, mas Canoas e região de Gravataí ainda conservam essas cicatrizes. Hoje se sabe que a liberdade para esse povo coagido veio manchada de sangue, não apenas pela tinta que firmou a chamada Lei Áurea.

Longe do que sugere o verso do hino, escravizados negros tinham muita virtude, porém foram sufocados pela violência e pelos interesses financeiros dos senhores brancos a partir do Século XVI.

O Brasil quase perdeu o trem da história também na Abolição da Escravatura: ocorreria somente 13 de maio de 1888, portanto, há exatos 131 anos. Com todas as contradições passíveis de serem apontadas, os Estados Unidos reverteram esse processo 23 anos antes (em 1865), a Venezuela em 1854 e a República Dominicana no simbólico ano de 1822 (A Independência do Brasil ocorreria em 7 de setembro, sem que a questão da aberração jurídica e de Direitos Humanos quanto aos escravizados fosse resolvida neste momento de “arejamento” libertário nacional às margens do Ipiranga – o tráfico, aliás, até piorou, dizem os especialistas). 

HISTÓRIA SOMBRIA
É uma história sombria. Deve ser lembrada para não ser repetida. Dados da The Trans-Atlantic Slave Trade Database (inventariado internacional de grandes universidades sobre os fluxos dos navios negreiros pelo mundo, trazido pela BBC em 2018), mostram a monstruosidade naturalizada em mais de três séculos: “navios portugueses ou brasileiros embarcaram escravos em quase 90 portos africanos, fazendo mais de 11,4 mil viagens negreiras. Dessas, 9,2 mil tiveram como destino o Brasil. Até 1650, dois de cada três navios que comercializavam escravos no mundo eram portugueses, informa a reportagem). Não se pode esquecer das charqueadas, dos Lanceiros Negros e da luta para fugir da tortura: os quilombos.

QUILOMBO, LIBERDADE

.Canoas abriga o primeiro quilombo urbano do Brasil, datado de 1926: o Chácara das Rosas, localizado no Marechal Rondon (reconhecido apenas em 2009). No país todo, quilombos eram territórios erigidos após a fuga da violência e que também se tornariam um espaço de apoio mútuo depois da liberdade formal dos escravizados. Em Canoas, os heróis desse resistência são do início do século XX, Rosalina Barbosa de Jesus e João Maria Genelício de Jesus, com eles outros filhos e netos de africanos. Hoje existe a Associação dos Moradores do Quilombo Chácara das Rosas unindo a comunidade instalada próximo ao Capão do Corvo. A luta atual é não deixar que a especulação imobiliária engula com prédios uma parte importante da história do nosso município, nem sempre celebrada como merece.

ESCRAVIZADOS A SERVIÇO DOS “HEROIS”
No RS, os escravizados africanos chegaram no século XVIII. Em Canoas, os negros foram trazidos pelos primeiros povoadores. Nossa região era uma área de veraneio e depois foi crescendo com proto-fábricas, com a linha férrea e com a instalação de famílias influentes. Mas a origem dessa história toda está muito ligada aos escravizados. Com eles ficou o serviço pesado, o abrir caminho nas matas, o matar animais, o trabalhar na carpintaria, na construção. As mulheres negras eram amas-de-leite. Coronel Francisco Pinto Bandeira prestou serviços à coroa portuguesa e ganhou terras onde viria a ser Canoas. Faleceu em 1771 e possuía 37 escravos. É nome de escola, no bairro Rio Branco. “Naquela época o senhor de posses levava os pertences, como hoje se faz com o carro, o animal de estimação”, destaca o mestre em Memória Social e Bens Culturais Jorge Nascimento. “Levava o que fosse necessário para a manutenção do status quo, o negro, pois trabalho pesado era algo considerado indigno para esses senhores.”
Conforme Nascimento, os negros no RS chegavam por Tramandaí. “Era um processo de organização e entrada para colonização, que também tinha Rio Grande como referência”, destaca. “É por isso que a Rota dos Quilombos é explícita, vem do litoral, segue por Viamão, Gravataí, Canoas, ao longo do Aquífero Guarani vai embora”, explica. “É a compreensão do uso da água como elemento estratégico para plantio e vida em geral dessas comunidades.”

CHÁCARA DAS ROSAS
.O Quilombo Chácara das Rosas é patrimônio cultural de Canoas. O casamento dos fundadores está na base da fundação, há 93 anos. Rosalina era uma das doze filhas do quilombola Manoel Barbosa instalado em Barro Vermelho (parada 107 da RS-030, zona rural de Gravataí). A chácara era uma área de plantio de hortifrúti e flores, além da criação de gado, porco e galinha e cavalo. Mantinha relações comerciais com diversos mercados da região. Hoje vivem no local menos de 30 famílias. A área tem cerca de 4 mil metros quadrados. “Se hoje existe racismo imaginemos pós-abolição, o escravizado era liberto, mas não era aceito, o quilombo é um processo colado à escravidão”, destaca Nascimento. “Houve uma pressão da Inglaterra para o fim da escravidão, caso contrário é possível que ela vigorasse ainda hoje.” À época, o quilombo foi crescendo e recebendo mais e mais famílias, chegando a um ponto em que várias optaram por se desmembrar e seguir a outros lugares. “O que acontece hoje é que há prédios por toda a volta do quilombo, de certa forma, isolando os descendentes dos escravizados que vivem na área”, aponta. “É uma parte da história que precisa ser conservada aqui, em Gravataí, parte da área quilombola já está com a grande montadora.”

O SANTO ESCRAVIZADO
Muitas são as figuras afro que contribuíram com o crescimento de Canoas. Pouco se sabe historicamente sobre várias delas. Figura mítica, Sebastião Coelho, Seu Bastião, era filho de escravizados (Em 28 de setembro de 1871 a lei nº 2040 após ter sido aprovada pela Câmara dizia no artigo primeiro que “os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre”). Bastião morreu aos 108 anos, em 1958. Um número considerável de pessoas atribuem a ele manifestações milagrosas, inclusive curas. Seu túmulo, no cemitério Chácara Barreto é local de atos piedosos e de fé até os dias atuais. “Minha mãe católica enviuvou cedo, mas todo Finados ela ia lá rezar para ele, a lápide ficava abarrotada de gente, se contava que Bastião era santo”, lembra Nascimento. “De certa forma a Igreja sempre teve um viés político, ter uma referência negra era bom, mas falava-se pouco sobre a parte do escravizado, só a do santo, afinal, de quem a família teria sido escrava? Falar disso não seria boa propaganda.”
Segundo mencionado pela pesquisadora Ana Paula Comin, da Ufrgs, o historiador oficial da cidade, João Palma da Silva relata em seu livro sobre as origens de Canoas que em 1884 o movimento pró-abolição da escravatura, iniciado em Porto Alegre, emancipou vários municípios, inclusive Gravataí. Ele diz ainda que: “Em sua sede, Rio dos Sinos, o Major Vicente oferece um churrasco aos seus escravos e os põe a vontade para deixar ou permanecer na fazenda. Todos ficam, arranchando-se pelos capões ou a beira das primeiras estradas, tornando-se pioneiros no povoamento urbano de Canoas. Uma petição enviada neste ano por Jorge Gothel Witrock a Câmara de Gravataí revela a existência de “muitos moradores” em Canoas.”

.Entrevista—Mary Del Priore, especialista em História do Brasil e autora do livro “O Castelo de Papel” (Editora Rocco), sobre o real papel da Princesa Isabel no movimento Abolicionista e “As Vidas de José Bonifácio” (Estação Brasil):

Joaquim Nabuco foi um abolicionista convicto?
Muitos personagens históricos brasileiros são sempre apresentados como anjos ou demônios. Joaquim Nabuco, por exemplo, foi abolicionista numa época em que as senzalas já estavam vazias. Todo mundo tem um lado complexo e a ficção histórica recupera isso de forma mais entusiasmada. Mas não se pode diminuir a importância, por exemplo, de José Bonifácio para a história do Brasil, uma vez que ele foi importante em vários aspectos, entre eles a promoção da diversidade cultural. Naquela época, Bonifácio já estava convivendo com mulatos que estavam no poder. Havia uma classe média mulata fortíssima no final do século 18 e começo do 19. O que Bonifácio estava vendo é que cada vez mais essas pessoas estariam participando da história. E Bonifácio sabia dançar lundu (dança de escravos angolanos).

A escravidão era uma preocupação pungente da Princesa Isabel?
No país, os escravos começam a desembarcar a partir 1530, 1540. O tema esteve distante das preocupações dela. Há manuscritos, por exemplo, que demonstram que ela se referia aos escravos como “negrinho” e “negrinha”, sem declinar o nome dessas crianças. Há o episódio em que um escravo dela precisou pedir alforria a Dom Pedro. O engajamento dela ocorreu em fevereiro de 1888 por causa do grande engenheiro mulato André Rebouças após conversa na casa dela em Petrópolis. A lei Áurea é de 13 de maio. É lenda que ela ajudou a acolher escravos fugidos.

Por que então foi protagonista da Lei Áurea?
Havia pressão política das ruas. Jornalistas mulatos exigiam. A princesa conservava um certo sentimento católico difuso, de fazer o bem. Para ela, a assinatura da lei foi um gesto de caridade. A luta mesmo foi de negros, republicanos, espíritas e positivistas.

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