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Cotidiano | Entretenimento Música

Arno Kayser fala da Barata Oriental, que vai tocar no Viva a Música especial

Uma crônica sobre o grupo que toca na homenagem do Viva a Música a Marco Kirsch em 3 de setembro

Por Arno Kayser
Publicado em: 06.08.2022 às 03:00

Por Arno Kayser

Corria o ano de 1986. Eu estava realizando um estágio de agricultura orgânica na Universidade de Kassel, na então, Alemanha Ocidental. Vivia numa república de estudantes na Aldeia de Unterriend, às margens do Rio Werra. Foi onde recebi a visita do meu amigo Marco Kirsch. Ele estava fazendo uma grande jornada de aprendizado pela Europa, tendo como base a Inglaterra, santuário do rock.

Show da Barata Oriental
Show da Barata Oriental Foto: Divulgação

Esse encontro nos oportunizou muitas conversas e aventuras incluindo uma visita ao, ainda em pé, Muro de Berlim.

Foi numa das noites em que tomávamos uma boa cerveja orgânica que sobrou da festa da colheita do departamento de métodos agrícolas alternativos que Marco me mostrou uma fita K7 que seu irmão Nenung lhe remetera do Brasil.

Nela estava registrada uma série de experiências musicais que mesclavam solos de guitarra muito expressivos com batidas furiosas num repenique. A guitarra a cargo do Daniel "Frizt" Hasenack e a percussão por conta do Brother do Markun.

Eram gravações bem precárias, mas que traziam uma rebeldia intensa digna dos grandes momentos do rock -and-roll. Marco estava cheio de expectativa e orgulhoso desse presente do seu mano mais novo.

Além do som meio dolorido, chamava também atenção a poesia de letras de protesto, carregadas de ironia, para com os usos e costumes de um mundo às vésperas do fim da guerra fria e da ditadura militar, que apresentavam como solução para os problemas da gurizada de classe média entediada, um mergulho no consumo e na alienação, para postergar mudanças manifestas desde os anos 60 por artistas e ativistas indignados com as mazelas do mundo.

Dois anos depois esse registro amador se converteu num repertório muito mais amplo e com mais densidade sonora na banda que o mundo viria a conhecer como A Barata Oriental.

Fugindo das chineladas da crítica mais conservadora e apelando pela ajuda de Albert Einstein irrigada por mares de cerveja para reconquistar a força e fazer o enfrentamento contra o destino inevitável de virar couve-flor projetado como destino de cada nova geração, eram canções com um grande poder de mexer com as cabeças e os corpos dos ouvintes.

Já instalada na sua base de ensaio ao lado da Fundação Scheffel, numa casa cedida por outro Fritz (o tio Frederico Scheffel), ela começou a ganhar o mundo fazendo shows que causavam furor, pela energia manifesta, provocando grande impacto no circuito do fulgurante rock gaúcho dos anos oitenta.

Isso graças à qualidade musical e também à produção executiva do Marco, que se dividia entre as transações comerciais e performáticas danças ao pé do palco, que encantavam e assustavam pela fúria similar ao que acontecia lá em cima.

Ainda em 1988 a Barata Oriental se somou a Mauro Kern e Nando Dávila num palquinho de madeira armado no fundo do Beco da Almiro Lau num show em prol do parcão. Evento realizado bem junto à sede da banda que tinha como caseiro ninguém menos que o recém ex-replicante Wander Wilder. Na época concentrado em aprender a tocar guitarra e passear com seu cão Venus pelo futuro parque.

Arno Kayser, à esquerda, ao lado do amigo Marco Kirsch
Arno Kayser, à esquerda, ao lado do amigo Marco Kirsch Foto: Acervo pessoal
O show foi um momento marcante na luta, liderada pelo Movimento Roessler, de incluir a antiga colônia do Fundador de Novo Hamburgo, João Pedro Schmitt, ao patrimônio natural e histórico de Hamburgo Velho. Era a continuidade da heroica jornada iniciada, anos antes, por uma turma ousada, liderada por Ernesto, "Monstro de Florença", Scheffel (o mesmo já citado tio Fritz para os íntimos). Um momento maravilhoso em que pude dividir os vocais com a banda e dizer que eu também não queria virar couve-flor.

Luta coroada em 1990 com a compra do parque pelo Prefeito Riztel após uma longa mobilização popular, com outros movimentos igualmente geniais.

Essa glória coincidiu com outra vitória da cultura de Novo Hamburgo. O prêmio de melhor disco de rock do ano dado para o primeiro LP da Barata Oriental.

Quis o destino que o secretário de cultura da época tivesse proibido espetáculos de rock no Centro de Cultura. Talvez temesse que as constantes rachaduras do prédio abrissem de vez com o furor do som e o entusiasmo do público fiel da banda.

Fato que levou Marco a uma busca por lugares para o lançamento. No desespero, até no bailão de Canudos se cogitou fazer o evento. Mas como o repertório da banda não dava pra seis horas, a ideia não agradou o dono do local.

Relatamos essa angústia para Carlinhos Mossmann, então chefe de gabinete do prefeito, num encontro no antológico Café Avenida. De pronto ele nos propôs a solução. Fazer um evento duplo de comemoração da compra do parque com o lançamento do disco para o povo de Novo Hamburgo. A prefeitura garantindo os custos.

Voltamos ao mesmo beco histórico. Mas desta vez com um palco moderno e a equipe de som do Quina. A melhor da época. Foi um evento memorável com toques de vibração hippie. Uma celebração do que a rebeldia canalizada para coisas boas pode promover no mundo. Show que anos depois, certamente, serviu de inspiração para Marco produzir a primeira edição do Viva a Música.

Mais um fruto da mística inspiradora do Hamburgerberg, que baixa sobre as esquinas de Hamburgo Velho em ocasiões especiais para nos encantar. A mesma força que já inspirou Júlio Kunz, Adão Adolfo Schmitt, Samuel Diestich, Pedro Weingartner e outros artistas que fizeram daqui um espaço de devoção à cultura e à beleza.

Que bom que mais uma vez teremos o Viva a Música entre nós. Desta vez com uma apresentação especial da Barata Oriental, que entre outras grandes atrações nos trará de volta a mesma emoção que encantou toda uma geração de fãs. Serão várias horas de música, desta vez para honrar a incrível capacidade de liderança criativa do nosso amigo Marco Kirsch de produzir eventos de devoção à arte e à vida.

Arno Kayser é agrônomo, ecologista e escritor

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