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Notícias | Região PESQUISA NA LUTA

Até onde a ciência já foi para ajudar no combate à dengue

Eliminar o mosquito transmissor é um trabalho conjunto, mas a ciência avança na luta contra a doença que já matou 28 pessoas no RS neste ano

Por Débora Ertel
Publicado em: 14.05.2022 às 07:00 Última atualização: 14.05.2022 às 11:49

O surto de dengue que atinge a região e também contamina outras cidades do Rio Grande do Sul é uma situação sem precedentes no território gaúcho. Até a sexta-feira, conforme a Secretaria Estadual da Saúde (SES), 28 pessoas morreram por dengue no Estado neste ano. Entre as vítimas, moradores de Novo Hamburgo, Nova Hartz, Sapucaia do Sul, Igrejinha, Dois Irmãos e Estância Velha.

Além disso, até as 18 horas da sexta eram 23.476 casos contraídos somente em 2022. São os maiores números já registrados desde que foi dado início à série história de acompanhamento da doença pelas autoridades de saúde. Já é sabido que a melhor forma de prevenção à dengue é o controle do mosquito Aedes aegypti, pondo fim aos criadouros de novos larvas, que se formam na água parada. Mas além disso, o que a ciência já conseguiu desenvolver para trazer um alento à população?

Testes da vacina da dengue estão em desenvolvimento no Instituto Butantan
Testes da vacina da dengue estão em desenvolvimento no Instituto Butantan Foto: Divulgação/Butantan
Não há medicamentos específicos para o tratamento da dengue disponíveis, embora existam duas pesquisas em andamento.

O que existe no Brasil, até o momento, é uma vacina disponível somente na rede privada, desenvolvida por tecnologia internacional. É a Dengvaxia, do laboratório Sanofy Pasteur (França). No entanto, a vacina não contempla todas as faixas etárias e ainda apresenta algumas restrições na aplicação.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o laboratório Takeda (Japão) fez um pedido de registro da vacina contra a dengue em 2021, que segue em análise.

A solicitação possui um status de "exigência", que é quando a Anvisa solicita ao laboratório apresentações de informações necessárias para o seguimento do processo.

Conforme a assessoria de imprensa da Agência, a envio dos dados complementares é necessário para que a análise siga. Por isso, por enquanto não é possível antecipar prazos ou resultados da pesquisa que envolve essa vacina.

O remédio

Sobre os estudos para desenvolvimento de um remédio no tratamento da dengue, a Anvisa informa que o primeiro se trata de um comprimido oral AT-752.

O medicamento é desenvolvido pela Atea Pharmaceuticals, dos Estados Unidos, no País representado pela PPD do Brasil Suporte à Pesquisa Clínica Ltda. O ensaio clínico integra ainda, além do Brasil, Colômbia, Índia, Malásia, Peru, Filipinas, Tailândia, Taiwan, Vietnã. O estudo está na fase 2, sendo que neste momento a Anvisa aguarda a apresentação de documentos e informações complementares.

A outra pesquisa é da Janssen, também para um comprimido, o JNJ-64281802-AAA. O estudo também está na fase 2 e o ensaio clínico deve ser realizado no Brasil, Colômbia, Estados Unidos da América, Filipinas, Malásia, México, Panamá, Peru, Porto Rico, Tailândia, e Vietnã.

Na Anvisa, a pesquisa está sob análise técnica. Participam do levantamento 1.850 pessoas e a expectativa da Janssen é que fique pronto, com todas três fases concluídas, até maio de 2025.

Vacina da dengue é desenvolvida pelo Butantan
Vacina da dengue é desenvolvida pelo Butantan Foto: Butantan/Divulgação

Vacina do Butantan apresenta bons resultados até aqui

No Brasil, desde 2010, o Instituto Butantan trabalha no desenvolvimento de uma vacina com tecnologia nacional para a doença. Em março deste ano, a revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics publicou um artigo sobre a vacina. Até agora, os estudos demonstraram que o imunizante induziu a geração de anticorpos em 100% daqueles que já tiveram dengue e em mais de 90% naqueles que nunca haviam tido contato com o vírus.

A pesquisa é uma parceria do Butantan com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (Niaid). Esses resultados se referem à fase 1 do ensaio clínico, realizada no país norte-americano. Atualmente, a pesquisa por lá já se encontra na fase 3, sendo que as conclusões da fase 2 foram publicadas em artigo na revista The Lancet Infectious Diseases em março de 2020. A segunda etapa da pesquisa mostrou que a vacina induz a produção de anticorpos em mais de 70% dos infectados contra os quatro subtipos do vírus com apenas uma dose.

Ciência para combater o mosquito

Venâncio
Venâncio Foto: Peter Ilicciev/Divulgação Fiocruz
O pesquisador da Fiocruz Rivaldo Venâncio trabalha há mais de três décadas no combate à dengue. Ele diz que o fato do Brasil ser um país continental dificulta a implantação de uma ação única contra o Aedes. No Amazonas, ele cita a experiência de armadilhas disseminadoras de pesticidas. "Os mosquitos, ao irem se alimentar, sujam as patas e conforme vão pousando, vão disseminando esses produtos", explica. De acordo com ele, essa é uma estratégia para regiões de difícil acesso, como palafitas e morros.

Venâncio cita que ainda há o estudo com a bactéria Wolbachia, que é um microrganismo intracelular presente em 60% dos insetos da natureza, mas que não estava presente no Aedes aegypti. Os cientistas constataram que quando presente nestes mosquitos, a bactéria impede que os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre amarela se desenvolva dentro do mosquito, contribuindo para redução destas doenças. "O desafio é fazer isso em escala industrial. Produzir ovos de fêmea em grande volume com Wolbachia", comenta.

O especialista informa ainda que há pesquisas com essa tecnologia inovadora em desenvolvimento no Estado do Mato Grosso, além das cidades de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Niterói, Petrolina, Fortaleza, Foz do Iguaçu e Manaus.

Demora para desenvolver remédios e imunizantes

Na avaliação de Venâncio, são dois fatores que pesam para a indústria farmacêutica não investir pesado no desenvolvimento de produtos para tratamento da dengue. O primeiro é que é uma doença, ao contrário da Covid-19, que em 95% dos casos é relativamente fácil de ser tratada clinicamente.

"Mesmo aqueles que precisam ser internados, é um manejo que não precisa de UTI ou de medicamentos caros. Tem um grau de complexidade menor quando é comparada à Covid", compara. Por conta disso, o pesquisador comenta que a dengue é uma doença relegada a segundo plano. "Entre os cientistas a gente usa um jargão quando se fala de dengue, que é uma doença negligenciada", diz.

Outro fator que não desperta maior interesse para combater a dengue é que esse é um problema de saúde de países mais pobres, em especial, na América Latina. "Você não vai ver dengue na Europa", diz.

Ajude a eliminar o Aedes de sua casa

Os depósitos preferenciais para os ovos do mosquito Aedes aegypti, o transmissor da dengue, são recipientes domiciliares com água parada ou até na parede destes, mesmo quando secos, por isso é importante fazer a limpeza deles. Os principais exemplos são pneus, latas, vidros, pratos de vasos, caixas d'água ou outros reservatórios mal tampados, entre outros. Entre as medidas preventivas que a pessoa pode fazer em casa estão:

- Manter tampada a caixa d'água, assim como tonéis ou latões que estejam expostos à chuva
- Guardar pneus velhos sob abrigos
- Não acumular água em vasos de plantas ou nos pratos onde ficam (cobrir com areia)
- Manter desentupidos ralos, canos, calhas, toldos e marquises
- Colocar embalagens de vidro, plástico ou lata em lixeira fechada
- Manter a piscina tratada o ano inteiro

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