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Opinião Opinião

A noite em que o povo calou Hollywood

A data de 25 de abril de 2021 entrará para a história da mídia como o dia em que o público disse não

Por Gilson Luis Cunha
Publicado em: 30.04.2021 às 09:32

A data de 25 de abril de 2021 entrará para a história da mídia como o dia em que o público disse não.

“Eu sei que muitos de vocês em casa querem pegar o controle remoto quando sentem que Hollywood está lhes dando um sermão”. Assim começou o discurso da atriz Regina King, na nonagésima terceira edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

É possível que a oscarizada atriz tenha feito algo jamais visto na história da TV mundial: narrado, em tempo real, exatamente o que os telespectadores estavam fazendo. É bastante possível que um parcela razoável do público, que ainda assistia a combalida premiação tenha mudado de canal ou desligado a TV exatamente no momento que ela se dirigiu a ela.

“Você não pode dizer que não tentamos avisar", Hollywood , disse Gary Buechler do canal Nerdrotic do Youtube, um dos mais famosos (e combatidos) canais de cultura pop da plataforma.

Agora é uma boa hora para apertar o botão de pânico. Para o Oscar, este é o primeiro chamado ao despertar de muitos. Os números da audiência finalmente chegaram (um dia depois), e como previsto, ele são abismais. O quão abismais? Que tal a pior audiência da história? O número de espectadores nos Estados Unidos caiu abaixo dos dez milhões de pessoas. Num universo de mais de trezentos milhões de cidadãos, o número de americanos que assistiu a cerimônia foi inferior ao número total de habitantes da cidade de São Paulo: 9,8 milhões.

Pior do que isso. Na faixa etária em que se encontra a maior parte da população economicamente ativa dos EUA, dos 18 aos 49 anos, estima-se que o público não tenha alcançado os três milhões de espectadores.

Vivemos tempos de distanciamento social. As pessoas estão em casa. A TV não devia ter mais audiência? Como explicar tamanha decadência, ainda mais da parte de uma cerimônia que já envolveu expectativas por parte de gente comum, de frequentadores de cinema que costumavam até torcer pelos indicados? Talvez a resposta não dependa só do que se vê nas telas:

“Hollywood tem feito isso há algum tempo. No entanto, nos últimos quatro anos, temos visto um monte de gente usando vestidos ou trajes de 250mil dólares e colares de 100 mil dólares, nos dizendo como devemos viver nossas vidas enquanto estão na segurança de suas muito confortáveis mansões de 62 milhões de dólares, cercadas por muros e guarda-costas armados”, Diz Buechler.

A queda na audiência na TV americana foi de 58% em relação à premiação do ano passado. Em termos de queda entre a faixa etária de 18 a 49 anos, foi de estarrecedores 64%.

“Nós tentamos avisar vocês. Vocês estão neste negócio para nos entreter. Escapismo! Vocês são um luxo para o qual nós precisamos estar confortáveis o bastante e ter o suficiente para gastar com seu produto. Quando seu produto tende a ser usado, não para divertir, mas como plataforma política, ele tende a excluir metade do país. Nesses casos, vocês perdem pelo menos 50% da audiência. Eu não acredito que isso seja um acidente. Não creio que seja coincidência.”

De fato, não parece ser o caso. O ano de 2021 tem revelado o poder do público. O mesmo público que desprezou o Oscar e que praticamente não tem o menor interesse nos premiados, prestigiou obras como Liga da Justiça – A versão de Zack Snyder, King Kong Versus Godzilla, entre outros.

Não cabe aqui uma análise dos méritos cinematográficos dessas obras. O que importa é que representam a volta do bom e velho entretenimento. Você pode até encontrar aqui e ali personagens e situações que parecem estar apontando para fora tela e dizendo “Ei! Ei, você aí, seu privilegiado! Não tem vergonha de estar aí parado quando devia estar...........(preencha com a causa ou bandeira de sua escolha)?”

As pessoas estão cansadas de serem agredidas e terem que ficar em silêncio porque “não estão em seu lugar de fala”. E quem está? Regina King com seu vestido extraordinariamente caro, feito a mão, com dezenas de milhares de cristais minuciosamente inseridos no tecido? Talvez Brie Larson, que agora tem um canal no Youtube, competindo com modestos criadores de conteúdo, e perdendo? Hollywood está começando a pagar pelas consequências de seus atos. Se tivesse gastado mais tempo e dinheiro em divertir e menos em agredir o público, as coisas não estariam do jeito que estão. E a situação não se limita aos cinemas, já abatidos por causa da pandemia. Mesmo nos serviços de streaming, o público se faz ouvir, desligando imediatamente quando começa o festival de doutrinação. Turn Off Time Stamp (TOTS) é um sistema que permite aos grandes serviços de streaming saber em que momento um determinado filme ou série foi abandonado pelo espectador. Recentemente, na série Falcão e O Soldado Invernal, o serviço Disney+ sofreu, nos EUA, uma evasão em massa de público no segundo episódio da série, numa cena tão forçada que chega a dar vergonha alheia. E isso ficou registrado. Os números impressionam. Mais de 70% do público que não quis continuar a ouvir mais um sermão da casa do camundongo, se desconectou com um intervalo de poucos segundos. Para bom entendedor....

“Todos nós tivemos um ano duríssimo. Um pouco de escapismo viria a calhar”, disse Bill Maher, um conhecido humorista e entrevistador, em seu programa de TV. “O que houve com o show Business? A sinalização de virtude (hábito de abraçar causas para as quais as celebridades não dão a mínima, mas que dá boas relações públicas) já arruinou a maior parte da internet, a indústria editorial, o New York Times, e a maioria das universidades onde o futebol americano não é uma prioridade. Por favor, ao menos deixem-nos os filmes, porque, com toda a honestidade, se o seu filme é tão woke (literalmente: “desperto”. Usado como uma gíria para “conscientizador”, que desperta o público para os “problemas de nosso tempo”), como é que eu conseguirei dormir?” conclui Maher. Considerando que o apresentador é um homem de esquerda e que foi um ferrenho crítico do governo Trump, essas palavras ganham uma força inusitada. Empresas como a Disney+ e a própria NETFLIX têm experimentado perda de clientes em plena pandemia. As ações do conglomerado CBS/Viacom/Paramount caíram mais de 60% em menos de um mês.

Resta agora saber o quão próximo da ruína os estúdios de cinema e os grandes serviços de streaming precisam chegar para aprenderem que quem paga seus salários é gente comum, que quer apenas se divertir, e não receber sermões de duas horas de duração. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até outro domingo desses aí.

A Noite em Que o Povo Calou Hollywood

(Data estelar 02052021)

A data de 25/04/2021 entrará para a história da mídia como o dia em que o público disse não.

“Eu sei que muitos de vocês em casa querem pegar o controle remoto quando sentem que Hollywood está lhes dando um sermão”. Assim começou o discurso da atriz Regina King, na nonagésima terceira edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

É possível que a oscarizada atriz tenha feito algo jamais visto na história da TV mundial: narrado, em tempo real, exatamente o que os telespectadores estavam fazendo. É bastante possível que um parcela razoável do público que ainda assistia a combalida premiação tenha mudado de canal ou desligado a TV exatamente no momento que ela se dirigiu a ela.

“Você não pode dizer que não tentamos avisar, Hollywood , disse Gary Buechler do canalNerdrotic do Youtube, um dos mais famosos (e combatidos) canais de cultura pop da plataforma.

“Agora é uma boa hora para apertar o botão de pânico. Para o Oscar, Este é o primeiro chamado ao despertar de muitos. Os números da audiência finalmente chegaram (um dia depois), e como previsto, ele são um abismais. O quão abismais?  Que tal a pior audiência da história? O número de espectadores nos Estados Unidos caiu abaixo dos dez milhões de pessoas. Num universo de mais de trezentos milhões de cidadãos, o número de americanos que assistiu a cerimônia foi inferior ao número total de habitantes da cidade de São Paulo: 9.8 milhões.

Pior do que isso. Na faixa etária em que se encontra a maior parte da população economicamente ativa dos EUA, dos 18 aos 49 anos, estima-se que o público não tenha alcançado os três milhões de espectadores.

Vivemos tempos de distanciamento social. As pessoas estão em casa. A TV não devia ter mais audiência? Como explicar tamanha decadência, ainda mais da parte de uma cerimônia que já envolveu expectativas por parte de gente comum, de frequentadores de cinema que costumavam até torcer pelos indicados? Talvez a resposta não dependa só do que se vê nas telas:

“Hollywood tem feito isso há algum tempo. No entanto, nos últimos quatro anos, temos visto um monte de gente usando vestidos ou  trajes de 250.000 dólares e colares de 100.000 dólares, nos dizendo como devemos viver nossas vidas enquanto estão na segurança de suas muito confortáveis mansões de 62 milhões de dólares, cercadas por muros e guarda-costas armados”, Diz Buechler.

A queda na audiência na TV americana foi de 58% em relação à premiação do ano passado. Em termos de queda entre a faixa etária de 18 a 49 anos, foi de estarrecedores 64%.

“Nós tentamos avisar vocês. Vocês estão neste negócio para nos entreter. Escapismo! Vocês são um luxo para o qual nós precisamos estar confortáveis o bastante e ter o suficiente para gastar com seu produto. Quando seu produto tende a ser usado, não para divertir, mas como plataforma política, ele tende a excluir metade do país. Nesses casos, vocês perdem pelo menos 50% da audiência. Eu não acredito que isso seja um acidente. Não creio que seja coincidência.”

De fato, não parece ser o caso. O ano de 2021 tem revelado o poder do público. O mesmo público que desprezou o Oscar e que praticamente não tem o menor interesse nos premiados, prestigiou obras como Liga da Justiça – A versão de Zack Snyder, King Kong Versus Godzilla, entre outros.

Não cabe aqui uma análise dos méritos cinematográficos dessas obras. O que importa é que representam a volta do bom e velho entretenimento. Você pode até encontrar aqui e ali personagens e situações que parecem estar apontando para fora tela e dizendo “Ei! Ei, você aí, seu privilegiado! Não tem vergonha de estar aí parado quando devia estar...........(preencha com a causa ou bandeira de sua escolha)?”

As pessoas estão cansadas de serem agredidas e terem que ficar em silêncio porque “não estão em seu lugar de fala”. E quem está? Regina King com seu vestido extraordinariamente caro, feito a mão, com dezenas de milhares de cristais minuciosamente inseridos no tecido? Talvez Brie Larson, que agora tem um canal no Youtube, competindo com modestos criadores de conteúdo, e perdendo? Hollywood está começando a pagar pelas consequências de seus atos. Se tivesse gastado mais tempo e dinheiro em divertir e menos em agredir o público, as coisas não estariam do jeito que estão. E a situação não se limita aos cinemas, já abatidos por causa da pandemia. Mesmo nos serviços de streaming, o público se faz ouvir, desligando imediatamente quando começa o festival de doutrinação. Turn Off Time Stamp (TOTS) é um sistema que permite aos grandes serviços de streaming saber em que momento um determinado filme ou série foi abandonado pelo espectador. Recentemente, na série Falcão e O Soldado Invernal, o serviço Disney+ sofreu, nos EUA, uma evasão em massa de público no segundo episódio da série, numa cena tão forçada que chega a dar vergonha alheia. E isso ficou registrado. Os números impressionam. Mais de 70% do público que não quis continuar a ouvir mais um sermão da casa do camundongo, se desconectou com um intervalo de poucos segundos. Para bom entendedor....

            “Todos nós tivemos um ano duríssimo. Um pouco de escapismo viria a calhar”, disse Bill Maher, um conhecido humorista e entrevistador, em seu programa de TV. “O que houve com o show Business? A sinalização de virtude (hábito de abraçar causas para as quais as celebridades não dão a mínima, mas que dá boas relações públicas) já arruinou a maior parte da internet, a indústria editorial, o New York Times, e a maioria das universidades onde o futebol americano não é uma prioridade. Por favor, ao menos deixem-nos os filmes, porque, com toda a honestidade, se o seu filme é tão woke(literalmente: “desperto”. Usado como uma gíria para “conscientizador”, que desperta o público para os “problemas de nosso tempo”), como é que eu conseguirei dormir?” conclui Maher. Considerando que o apresentador é um homem de esquerda e que foi um ferrenho crítico do governo Trump, essas palavras ganham uma força inusitada. Empresas como a Disney+ e a própria NETFLIX têm experimentado perda de clientes em plena pandemia. As ações do conglomerado CBS/Viacom/Paramount caíram mais de 60% em menos de um mês.

            Resta agora saber o quão próximo da ruína os estúdios de cinema e os grandes serviços de streaming precisam chegar para aprenderem que quem paga seus salários é gente comum, que quer apenas se divertir, e não receber sermões de duas horas de duração. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até outro domingo desses aí.


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