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Sobre perder alguém

Por Débora de Oliveira
Publicado em: 30.07.2022 às 03:00

Essa semana perdi uma das pessoas mais importantes que passaram pela minha vida. O Gildão era amigo de infância e adolescência dos meus pais e faz parte de tudo que lembro ter vivido e que guardo nas minhas memórias afetivas desde sempre. Meus pais são padrinhos da filha dele, e ele era aquele que mesmo sem ter laço nenhum de sangue comigo ou minha família, sempre foi uma escolha indiscutível ser parte dela.

No meu casamento com meu esposo não tínhamos padrinhos até a hora da cerimônia. Escolhemos as pessoas que gostaríamos da bênção e, só no altar, viramos para os presentes e fizemos os convites dizendo os motivos pelos quais cada um era importante para a gente. E assim os convidados iam sabendo o porquê de cada pessoa e como ela era legítima naquela caminhada de amor.

Todo mundo se emocionou muito, cada convite era motivo de lágrimas de felicidade e emoção até mesmo de quem sequer conhecia os homenageados. Mas nenhum causou tanta comoção quanto o momento que chamei o Gildão.

Eu contei que, quando eu era criança, às vezes dormia lá nos finais de semana para brincar com a filha dele. Mas em um sábado específico minha mãe não deixou eu ir e ele queria saber por que. Domingo seria Páscoa e meus pais não tinham condições de me dar um ninho, então a ideia era que eu ficasse em casa e assim nem saberia que era dia de procurar o coelhinho, e então não me daria conta de que não tinha ganhado nada. Quando soube o motivo o Gildão foi até a casa dele, dividiu o ninho que daria para a filha em dois e voltou lá em casa com a minha parte, dizendo: enquanto eu viver, nunca vai faltar nada para ela. E entregou à minha mãe o meu ninho com o que compartilhou.

Um dia vim a Novo Hamburgo e encontrei ele no centro e, na carona para casa, mostrei uma casa que eu adoraria morar no Jardim Mauá, bairro que cresci. Mas que estava acima do valor que eu poderia pagar. Então eu disse: essa casa aqui que eu tenho que ganhar na megasena para poder comprar. Na sexta seguinte ele me ligou: eu comprei o Tri Legal e se eu ganhar já posso te ajudar a comprar a casa. Não ganhamos, não compramos... mas o gesto de tentar a sorte, a preocupação em me ajudar, a lembrança de saber que mais do que por ele queria era ganhar por mim... são coisas que valem mais que qualquer prêmio.

E então eu me despedi dele na quinta-feira pensando... será mesmo que eu PERDI alguém tão importante? Será que PERDEMOS pessoas que nos ensinaram e acolheram com tanto carinho e afeto? Não posso considerar que perdi o Gildão porque eu só
GANHEI durante todos esses anos a convivência de uma pessoa que me ensinou sobre relações muito mais do que pessoas da minha própria família. Ganhei sempre de graça, sempre sem se importar com nada em troca. Era natural nossa ligação. E tão forte que não consigo sentir essa perda como uma derrota da vida, porque tivemos sempre vitórias compartilhadas mesmo nos jogos mais difíceis.


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